Input:
(Nosso take do dia)
A histórica vitória de Lula anuncia um mandato complexo em políticas digitais. De um lado, o PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado, e o campo da direita saiu fortalecido no Legislativo e nos estados. Do outro, as peças ainda estão em processo de acomodação, com Davi Alcolumbre projetando chances na disputa da presidência no Senado, por exemplo.
Elencamos 4 chaves para pensar o campo de políticas públicas e tecnologia a partir do resultado das urnas:
1. Há uma janela para nomeações em agências até fevereiro de 2027, quando o Congresso irá mais para a direita
O PL terá a maior bancada do Congresso a partir de fevereiro de 2027, e a direita chegará com mais força para bloquear projetos, contestar decisões judiciais e influenciar a composição de instituições de Estado. Como analisamos ao final do primeiro turno, o cenário será particularmente complexo no Senado.
No entanto, até lá as casas continuarão com sua composição atual, e abre-se uma janela de aproximadamente dois meses, antes do recesso legislativo, para que Lula tente avançar em indicações a tribunais superiores e órgãos reguladores.
No setor digital, duas instituições merecem atenção: a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). A primeira já possui uma vaga aberta desde 2025 e chegará à metade de dezembro com três dos cinco assentos de seu Conselho Diretor a preencher, incluindo a presidência. O segundo também atravessa um período de recomposição de seu tribunal, com três vagas já abertas, incluindo a presidência. ANPD e CADE podem ser determinantes para tornar mais efetiva uma nova faceta para as políticas digitais no Lula 4: o enfrentamento do poder corporativo digital.
A pergunta dos próximos meses é se haverá condições políticas para acelerar essas indicações antes da chegada do novo Senado. Alcolumbre terá papel central, seja nas negociações, seja no controle da pauta de sabatinas e votações. É uma janela curta.
2. Combate ao poder corporativo ganha protagonismo na agenda de regulação de plataformas
A regulação das plataformas ocupou um lugar central no discurso de vitória de Lula. O presidente acusou grandes empresas de tecnologia de interferirem na disputa eleitoral e questionou seu poder de interferir na política. Com efeito, poucas vezes o tema apareceu com tanta ênfase em um pronunciamento presidencial dessa importância.
A vitória de Lula afasta a perspectiva de um desmonte rápido da arquitetura regulatória construída nos últimos anos. Mesmo que a continuidade do governo não se traduza em facilidade para aprovar novas leis no Congresso, ela garante um horizonte à implementação das normas existentes e a uma continuidade no arcabouço infralegal, com disputas nos processos de fiscalização, decisões administrativas e interpretações judiciais.
O tom do discurso do presidente e a trilha da campanha, contudo, projetam um reenquadramento. Entre 2020 e 2026, a regulação das plataformas foi organizada fundamentalmente em torno da desinformação, do discurso de ódio e de outros online harms. Agora, a experiência da campanha recolocou uma discussão mais ampla sobre o poder corporativo das grandes empresas de tecnologia sobre as condições de circulação da informação e de participação dos usuários no ambiente digital, especialmente à esquerda.
Nesse novo quadro, os sistemas de recomendação, a distribuição algorítmica de conteúdos, as assimetrias de informação entre plataformas e usuários, o devido processo na moderação e os mecanismos de transparência ganham maior preponderância - temas que já ganharam investigações na ANPD e no MPF.
Isso pode, inclusive, embaralhar demandas hoje apresentadas por campos políticos adversários. Enquanto a esquerda questiona o poder econômico e político das big techs, segmentos da direita continuam a reivindicar garantias contra decisões arbitrárias de moderação, transparência e possibilidade de recurso.
3. No Congresso, as pautas digitais dependerão de coalizões diagonais
O fortalecimento da direita no Congresso não significa que todas as propostas de regulação digital estarão bloqueadas. O ponto é quanto essas matérias conseguirão produzir alianças que atravessam fronteiras partidárias. São coalizões diagonais: alianças que atravessam a divisão entre esquerda e direita e se reorganizam conforme os interesses de cada pauta. Para um Executivo com base parlamentar mais frágil, construí-las será fundamental.
Três agendas legislativas merecem atenção. Na inteligência artificial, a negociação envolve desenvolvedores, setores econômicos, pesquisadores e organizações de direitos digitais, com divergências sobre responsabilidades e custos regulatórios. É preciso observar se o governo, que já colocara carga no tema da proteção de direitos, trará o tema do poder corporativo para dentro do PL 2338, e se isso poderá contaminar uma agenda que traz consigo tantos lobbies diversos.
Na regulação concorrencial dos mercados digitais, o projeto que amplia as competências do CADE pode reunir empresas de mídia, restaurantes, varejistas e outros negócios interessados em limitar o poder dos grandes intermediários. É um tema antipoder corporativo por natureza, em relação ao qual o debate a respeito da Meta nas eleições brasileiras pode eventualmente ter um efeito spillover para outras plataformas.
Já a regulamentação do trabalho por aplicativos mobiliza empresas, trabalhadores e sindicatos em torno de diferentes concepções de autonomia e proteção social. O protagonismo do mundo do trabalho na eleição com o tema do fim da escala 6 por 1, e seu impacto sobre a vitória de Lula, deve fazer o governo reeleito reforçar o ímpeto pela regulação.
4. Agenda digital do Lula 4 chega mais estruturada, mas dependerá de liderança política
Se no quarto mandato Lula terá menos espaço no Legislativo, seu governo chega com um projeto digital mais organizado do que em 2023, e as políticas digitais tendem a ter mais protagonismo dentro do governo.
O programa de Lula na área combina soberania tecnológica, infraestrutura computacional, inteligência artificial, transformação digital do Estado e segurança de usuários, incluindo o combate a golpes e fraudes. Parte dessa agenda já dispõe de instrumentos concretos, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o Redata e a Estratégia Federal de Governo Digital. Há um amálgama novo, entretanto: o sentido desses instrumentos, com a elaboração da nova Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (ou E-Digital, que valerá de 2027 a 2031), sob coordenação da Casa Civil.
Antes uma lista de projetos “de digital”, a nova E-Digital priorizará eixos e projetos, conversa com o plano de governo do quarto mandato e é uma ilustração de uma agenda digital com sentido e maior coesão, fruto de um governo que demorou a acomodar forças, mas que depois do tarifaço conseguiu produzir mais alinhamento. Nesse quadro, é relevante observar como essa coordenação continuará a acontecer dentro do Palácio do Planalto, com o Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CITDigital) como mecanismo de governança e acompanhamento dessas prioridades.
Desse esforço é possível projetar mais estrutura dentro do centro de governo. É de se esperar que o Lula 4 também promova reformas na estrutura do Executivo para dar maior centralidade e capacidade de coordenação à pauta, com redistribuição de competências entre pastas.
Uma incógnita é se a pauta de políticas digitais terá um padrinho no nível de ministro ou secretário especial, o que lhe faltou no Lula 3.
Chico e Gallo
Prompt:
(As manchetes mais importantes)
🏛️ Lula reeleito promete regular plataformas digitais no 1º discurso
📱 Meta vira nova vilã tech na eleição brasileira, superando Musk
⚖️ WhatsApp e Meta dominaram pauta eleitoral do TSE no 2º turno
👶 ECA Digital gera corrida por alvarás para influenciadores mirins
💰 US$ 42 bi em multas da Meta são alerta para empresas de IA
🧠 Proposta de lei de IA da Anthropic vaza e provoca reação negativa
📰 IA do Google desestruturou o modelo de negócios do jornalismo digital
🕵️ Startup de ex-DOGE invadiu sistemas da Anthropic em 12 horas
📊 O que está em jogo na estreia da Anthropic na bolsa? Praticamente tudo.
🔌 AWS já tem a maior parte de sua capacidade vendida até 2028
🇧🇷 Brasil
▌ REGULAÇÃO / POLÍTICAS PÚBLICAS
_ Lula reeleito promete mudar jeito de governar e regular plataformas (Estadão)
No primeiro discurso após a vitória no 2º turno, Lula prometeu mudar o estilo de governo e defendeu a regulamentação das plataformas digitais.
O petista também afirmou que a eleição foi marcada por tentativas de interferência externa por meio de plataformas digitais, e prometeu regulá-las. “O crime digital tem que ser tratado igual na vida real. Não podemos ter empresas monstruosas de grande ganhado bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para este País e tentando influenciar o resultado eleitoral deste país”, afirmou.
_ Meta desbanca Musk como vilã da tecnologia para Lula na eleição (Folha)
A Meta recebeu ordem da Justiça Eleitoral para não interferir na distribuição de conteúdo político após a campanha de Lula acusá-la de, "repetida e sistematicamente", não entregar seu conteúdo aos usuários.
As Nações Unidas também criticaram a companhia, e parlamentares dos EUA exigiram respostas - num déjà-vu do confronto com Elon Musk e o X em 2024.
_ Eleição mostra que plataformas digitais não são neutras, diz especialista (Valor)
Os casos envolvendo a Meta levaram ao público uma discussão até então restrita a especialistas: o papel das big techs na distribuição de conteúdo político.
_ Canais no WhatsApp e influência da Meta dominaram pauta do TSE no 2º turno (Conjur)
O uso de canais de WhatsApp por candidatos políticos e a influência da Meta foram os principais temas de julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral no segundo turno da eleição presidencial de 2026. A corte chegou a suspender o canal “Exército de Lula” e cogitou proibir esses ambientes na véspera do pleito. Mas não houve conclusão sobre o papel da Meta.
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alega que o algoritmo da big tech favoreceu seu oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Já Flávio sustenta que a estrutura do governo federal beneficiou Lula. Os temas deverão ser apreciados pelo tribunal depois da disputa.
_ ECA Digital gera corrida por alvarás para influenciadores mirins (O Globo)
Desde que o CNJ regulamentou, em junho, a exigência de alvará judicial para atividades habituais e monetizadas com menores nas redes sociais, famílias enfrentam decisões divergentes e processos que se prolongam por meses.
Em setembro, a 1ª Vara da Infância e da Juventude da Paraíba negou pedido de autorização para uma produtora de conteúdo usar a imagem do filho de 2 anos, entendendo que a exibição para gerar receita publicitária não se enquadra na exceção de trabalho artístico do ECA.
_ Próximo governo terá 41 cargos a preencher em agências reguladoras e Cade (O Globo)
O novo governo terá 37 cargos - 66% do total - para preencher nas diretorias dos 12 principais órgãos reguladores, incluindo BC e CVM; o número sobe a 41 com os conselheiros do Cade.
Atualmente, as dez agências reguladoras somam 15 vagas abertas; até o fim de 2026, mais sete posições se abrirão por término de mandato, e em 2027 serão mais 12 postos disponíveis.
▌ SEGURANÇA ONLINE
_ No Telegram, 60 canais espalharam fake news sobre urnas antes do 2º turno (Agência Pública)
Levantamento identificou 418 publicações questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas numa rede de 60 canais do Telegram com 891 mil inscritos, sendo 58 deles de apoio a Flávio Bolsonaro.
A maior parte dos registros (245 de 418) se concentrou entre maio e outubro de 2026, com pico de 91 publicações nas semanas ao redor do primeiro turno.
▌ NEGÓCIOS
_ Globo faz maior mudança no Globoplay na década com novos canais no plano básico (Folha)
A Globo incluirá canais pagos como SporTV, GloboNews e GNT no pacote básico com anúncios do Globoplay a partir de novembro, ao preço de R$ 19,90 no plano anual.
🌍 Mundo
▌ REGULAÇÃO / POLÍTICAS PÚBLICAS
_ US$ 42 bi em multas da Meta são um aviso para empresas de IA (Axios)
Uma avalanche de litígios resultou em US$ 42 bilhões em penalidades e acordos para a Meta - um lembrete de que empresas de IA podem enfrentar um acerto de contas judicial mesmo quando a regulação ainda não chegou.
_ Proposta de lei de IA da Anthropic vaza e provoca reação negativa (Semafor)
A Anthropic apresenta a parlamentares uma proposta que permitiria ao governo bloquear o lançamento ou uso de um modelo de IA apenas se ele representasse risco iminente e previsível de mais de US$ 1 bilhão em danos.
_ Reino Unido investe £ 100 mi para criar laboratório de IA e biossegurança (BBC)
O governo britânico anunciará no Orçamento a criação do AI Biosecurity Lab (AIBL), descrito como uma instituição global inédita para fortalecer defesas contra ameaças biológicas emergentes potencializadas por IA.
O ministro de IA Kanishka Narayan disse que o laboratório reunirá "expertise científica de nível mundial" para proteger o país de riscos que vão de ciberataques a ameaças biológicas habilitadas por IA.
_ Como a busca com IA do Google desestruturou o jornalismo digital (The Verge)
O lançamento dos AI Overviews do Google - resumos gerados por IA que aparecem no topo dos resultados de busca - rompeu a relação historicamente recíproca entre o buscador e os veículos de comunicação digital.
Com o sumário de IA ocupando o topo da página, publishers perderam o incentivo de clique que sustentava a lógica de otimização para buscadores (SEO) desenvolvida ao longo de anos.
▌ SEGURANÇA ONLINE
_ Startup de ex-funcionários do DOGE invadiu sistemas da Anthropic em 12 horas (WaPo)
A Cathedral, uma start-up de cibersegurança criada há poucos meses, informou recentemente à Anthropic, desenvolvedora do chatbot Claude, que seus pesquisadores haviam conseguido acesso a dados internos sensíveis e a sistemas de mensagens da empresa de inteligência artificial.
Após rodar agentes de IA por menos de 12 horas, os pesquisadores encontraram caminhos para acessar dados internos da Anthropic, incluindo transcrições de reuniões, informações sobre salários e propostas de emprego e mensagens no Slack sobre seus modelos de IA avançados.
_ IA ajudou pesquisadores a descobrir e atacantes a explorar falhas no PHP (Wired)
Pesquisadores de segurança usaram ferramentas de IA avançadas - parcialmente dentro do programa "Patch the Planet" da OpenAI - para identificar as vulnerabilidades PHP2Shell e criar exploits, transformando falhas conhecidas há anos em uma crise atual.
Após a publicação das vulnerabilidades, a Cloudflare registrou milhões de tentativas de exploração em poucas horas; até agora, a PHP Foundation não confirmou explorações bem-sucedidas.
_ BBC revela anúncios pagos no Facebook com desinformação em eleição na Sérvia (G1)
O Serviço Mundial da BBC identificou dezenas de páginas no Facebook que publicaram anúncios políticos pagos, sem identificar claramente os financiadores, nas semanas anteriores à eleição parlamentar antecipada na Sérvia.
Todos os anúncios foram pagos em moeda romena (leu), violando a lei sérvica que proíbe recursos estrangeiros em propaganda política; a Meta removeu 47 dos ao menos 90 anúncios identificados nas 56 páginas mapeadas.
▌ NEGÓCIOS
_ O que está em jogo na estreia da Anthropic na bolsa? Praticamente tudo. (NYT)
Quando a Anthropic abrir capital, o que pode acontecer já no mês que vem, sua oferta inicial de ações será mais do que uma festa de debutante para a empresa de inteligência artificial. Será também um teste decisivo para a economia, com trilhões de dólares em jogo.
A Anthropic é um dos pilares do setor de IA. Avaliada em quase US$ 1 trilhão no mercado privado e com mais de US$ 130 bilhões em investimentos captados, a empresa pode levantar US$ 100 bilhões em sua oferta e se tornar de imediato uma das maiores companhias de capital aberto do mundo. Mas o que está em jogo vai muito além disso.
▌ INFRAESTRUTURA
_ AWS está "praticamente esgotada" para 2027, diz Andy Jassy (The Information)
Andy Jassy afirmou que a capacidade da AWS para 2027 está "em grande parte vendida" e que uma "boa fatia" da capacidade de 2028 também já foi comercializada.
_ O que o movimento antidata center dos EUA pode aprender com o exterior (Wired)
Paris Marx, autor de Hyperscale, mapeou a resistência global a data centers - de moratorias na Holanda e Singapura desde 2019 a conflitos sobre consumo energético na Irlanda - como referências para o debate que agora se acirra nos EUA.
Na Irlanda, o crescimento acelerado dos data centers gerou uma crise de pressão sobre a rede elétrica que forçou revisões regulatórias, caso paradigmático para outros países que enfrentam o mesmo dilema.
_ Multas por atraso em data centers chegam a US$ 5 mi por dia (The Information)
Inquilinos de data centers agora exigem multas de US$ 5 milhões ou mais por dia em atrasos de entrega - ante US$ 1 milhão na primavera passada -, dando origem a um novo mercado de seguro contra atrasos.
▌ GEOPOLÍTICA
_ China depende cada vez mais de copiar IA americana, aponta análise (The Economist)
A destilação de modelos americanos - prática que irrita os EUA - pode acabar limitando o avanço independente da China em inteligência artificial.
_ China critica proposta dos EUA de endurecer limites a investimentos em biotech (O Globo)
A China afirmou que "se opõe firmemente" à proposta do Tesouro dos EUA de incluir a biotecnologia entre as tecnologias sensíveis sujeitas a restrições de investimento, classificando a medida como "aplicação excessivamente ampla do conceito de segurança nacional".
O Ministério do Comércio da China disse que as restrições contrariam o "importante consenso" entre os presidentes dos dois países e se reservou o direito de adotar "medidas correspondentes".
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